Festa típica. Cheguei e sorri:
-- Olá, tudo bem?
Após vinte minutos:
-- Boa noite, tudo bem?
Cumprimentei pouco mais da metade das pessoas.
Várias mesas e algumas cadeiras, cuja maioria era de plástico. Tratei de providenciar uma, porque sempre são poucas. E elas diminuem com o passar do tempo, pelo menos até certa altura.
As cadeiras são em número suficiente para que haja um ar movimentação, pessoas em pé. Pessoas em pé fazem parte do marketing da festa e muitas delas dão aquele sorriso gentil com o canto da boca e falam que não querem se sentar. Imagine se quero me sentar...
Eu quero. Sentei-me.
-- E o senhor, gostaria de beber o quê?
-- Deixe-me pensar -- pequena pausa. Uma Coca-cola, por favor.
Sim. Não era dia de outra bebida. Falei um pouco com as pessoas ao meu lado. Peguei os petiscos. Umas duas vezes.
Outras pessoas conhecidas chegaram. Conversamos.
Jantar. Os primeiros esfomeados aglomeraram-se e depois de algumas brigas pela colher do arroz, voltaram aos seus lugares. Peguei depois deles o pedaço que me cabia.
Sobremesa. E as mulheres, querendo encher o vazio nelas com o doce -- e só com o doce --, correram e disputaram a mousse de chocolate como se fosse a última e queriam o pedaço de merengue com mais morangos. Ficavam pescando os morangos até sujar as mãos.
Eu não. Queria o com menos morangos. Sem morangos, se possível, mas não foi possível.
Voltei para a mesa. O assunto: morangos. É época. Daí as moças me perguntaram: morangos ou cerejas?
Cerejas, é claro! Os morangos são seus. Imensamente seus, quando acompanhados de um sorriso.
sábado
sexta-feira
Os mais doces
Pensar que a saudade existe e se vem é tão triste.
As palavras não são minhas -- muito pelo contrário, fazem parte da canção. Por fazerem parte da canção, fazem parte de todos os que a conhecem e a cantam -- e eu garanto que muitos a cantam.
O eu-lírico nesta canção diz que vai morrer de amor. É bonito. O amor sempre foi um problema para os humanos, desde que eles o conhecem. Tudo que é gente, nem que seja no começo, quer ser amado e depois, porque quer, vai amar. O que é o amor?
Eu pego a definição que defendo e que novamente não é minha. "Amar é dar o que não se tem". Quem disse foi Lacan. Se com essa definição ele não conseguiu definir de fato o amor, ele marcou o que a nele de mais essencial: só há amor e relação amorosa quando uma pessoa dá a outras aquilo que ela não tem: seja isso cordialidade, disposição, palavras ou tantas coisas quanto possam ser imaginadas. Aí vem o companheiro e me diz que amar é uma arte!
Sei lá o que se entende como arte. E esta pergunta é fundamental: o que é arte?
"Arte" no dicionário Houaiss está em vinte e cinco -- sim, vinte e cinco! -- verbetes. Nenhum deles dá conta daquilo que vem a ser arte, porque há uma diferença inerente entre aquilo que se vê e aquilo de que se fala.
Para minha imensa infelicidade e para a banalização da palavra -- que é bonita -- há esse uso de arte como técnica, como o de uma atividade colocada em prática e de forma controlada. Tem definições para o lado do platonismo e do aristotelismo; do perfeccionismo, da contenção, da consciência, do exercício de uma atividade de tudo o mais que se imaginar. Não sei se isso veio antes ou depois da onda pragmática, que permite falar que qualquer coisa é arte, que tudo é arte -- de administração a direito; de medicina a matemática. Minha vesícula, alias, se contorce a cada vez que eu ouço o tal do "A medicina é uma arte".
Pois que a medicina seja uma arte de acordo com as definições. Eu não discordo. Mas há uma diferença essencial entre, por exemplo, um livro de medicina e um de James Joyce ou ainda entre uma cirurgia e um quadro do Magritte.
Eu fico com arte para o lado do Joyce e do Magritte -- e acho que estou em melhor companhia. Talvez, fosse bom trocar de palavra, principalmente para que eu não andasse pelas ruas e visse aquele monte de lojar com os nomes mais esdúxulos que fazem uma cacofonia entre a palvra "arte" e a terminação "ar" dos verbos da primeira conjugação, do estilo brincarte, decorarte, organizarte, amarte, finalizarte.
De qualquer forma, as definições de que mais gosto de arte são aquelas que levam em conta o belo enquanto valor, como a seguinte: "obra humana, de funções práticas ou mágicas, e posteriormente considerada bela, sugestiva". Outra que me agrada é "travessura, traquinagem".
Além disso, no Aurélio antigo havia outra excelente -- algo como: "obra feita a partir das emoções de um autor e que pressupõe a criação de sentimentos e emoções naqueles que a apreciam". Isso faria da arte menos banal e mais suculenta, certamente. Mas tudo o que é homem pode ser banal e com pouco gosto. No mais das vezes, não há problema nisso, ainda que eu prefira as coisas suculentas.
O problema é a palavra perder ser significado e seu sabor, como o amor o tem perdido.
É aí muitas pessoas passam a ter medo de amar. E suas vidas se tornam um fracasso.
As palavras não são minhas -- muito pelo contrário, fazem parte da canção. Por fazerem parte da canção, fazem parte de todos os que a conhecem e a cantam -- e eu garanto que muitos a cantam.
O eu-lírico nesta canção diz que vai morrer de amor. É bonito. O amor sempre foi um problema para os humanos, desde que eles o conhecem. Tudo que é gente, nem que seja no começo, quer ser amado e depois, porque quer, vai amar. O que é o amor?
Eu pego a definição que defendo e que novamente não é minha. "Amar é dar o que não se tem". Quem disse foi Lacan. Se com essa definição ele não conseguiu definir de fato o amor, ele marcou o que a nele de mais essencial: só há amor e relação amorosa quando uma pessoa dá a outras aquilo que ela não tem: seja isso cordialidade, disposição, palavras ou tantas coisas quanto possam ser imaginadas. Aí vem o companheiro e me diz que amar é uma arte!
Sei lá o que se entende como arte. E esta pergunta é fundamental: o que é arte?
"Arte" no dicionário Houaiss está em vinte e cinco -- sim, vinte e cinco! -- verbetes. Nenhum deles dá conta daquilo que vem a ser arte, porque há uma diferença inerente entre aquilo que se vê e aquilo de que se fala.
Para minha imensa infelicidade e para a banalização da palavra -- que é bonita -- há esse uso de arte como técnica, como o de uma atividade colocada em prática e de forma controlada. Tem definições para o lado do platonismo e do aristotelismo; do perfeccionismo, da contenção, da consciência, do exercício de uma atividade de tudo o mais que se imaginar. Não sei se isso veio antes ou depois da onda pragmática, que permite falar que qualquer coisa é arte, que tudo é arte -- de administração a direito; de medicina a matemática. Minha vesícula, alias, se contorce a cada vez que eu ouço o tal do "A medicina é uma arte".
Pois que a medicina seja uma arte de acordo com as definições. Eu não discordo. Mas há uma diferença essencial entre, por exemplo, um livro de medicina e um de James Joyce ou ainda entre uma cirurgia e um quadro do Magritte.
Eu fico com arte para o lado do Joyce e do Magritte -- e acho que estou em melhor companhia. Talvez, fosse bom trocar de palavra, principalmente para que eu não andasse pelas ruas e visse aquele monte de lojar com os nomes mais esdúxulos que fazem uma cacofonia entre a palvra "arte" e a terminação "ar" dos verbos da primeira conjugação, do estilo brincarte, decorarte, organizarte, amarte, finalizarte.
De qualquer forma, as definições de que mais gosto de arte são aquelas que levam em conta o belo enquanto valor, como a seguinte: "obra humana, de funções práticas ou mágicas, e posteriormente considerada bela, sugestiva". Outra que me agrada é "travessura, traquinagem".
Além disso, no Aurélio antigo havia outra excelente -- algo como: "obra feita a partir das emoções de um autor e que pressupõe a criação de sentimentos e emoções naqueles que a apreciam". Isso faria da arte menos banal e mais suculenta, certamente. Mas tudo o que é homem pode ser banal e com pouco gosto. No mais das vezes, não há problema nisso, ainda que eu prefira as coisas suculentas.
O problema é a palavra perder ser significado e seu sabor, como o amor o tem perdido.
É aí muitas pessoas passam a ter medo de amar. E suas vidas se tornam um fracasso.
quinta-feira
Quantos para um sonho?
(Comentário sobre o filme "Os sonhadores", por ocasião de sua exibição no cine-clube da Faculdade de Medicina da UFG, em março deste ano)
Antes de começar a discutir um filme, caberia a pergunta: “O que é um filme?” Apesar de ser pergunta aparentemente simples, não o é, pois tudo que é filmado por uma câmera e é colocado numa tela é, por bem ou por mal, um filme: sejam gravações de terrorista no Iraque, seja um vídeo da festa de aniversário da filhinha ou uma mega-produção de Hollywood.
No entanto, não me ocuparei deste assunto. Fato é que há várias formas de analisar um filme, se o tomarmos enquanto tendo algo de artístico. Cabe lembrar que arte aqui é entendida como a expressão de sensações e sentimentos por parte de um autor, supondo a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético e carregadas de vivências pessoais naqueles que apreciam da obra. Sendo assim, um filme abrange, além daquilo que está dito na história, o que não está dito, que é, de certa forma uma técnica.
Este aspecto, no caso de Os Sonhadores, está ligado, por exemplo, aos enquadramentos originais usados pelo autor – feitos sobretudo dentro de um apartamento –, às cores nas tomadas, às montagens feitas e às edições dinâmicas e com outros filmes entremeados à ação das personagens Theo, Isabelle e Matthew. Por diversos momentos, são utilizados trechos pouco óbvios de filmes bastante conhecidos entre os cinéfilos da época em Paris, entre eles: “Scarface” (original), “Shock Corridor” e “Bande à part”.
É interessante notar o jogo que Bertolucci, diretor do filme, faz com os filmes, uma vez que, diz ele, naquela época os cinéfilos de Paris faziam vários jogos assim entre si, isto é, diziam uma frase do filme ou interpretavam algum personagem para que os outros adivinhassem.
Bertolucci diz ainda que sua intenção neste filme é de que elementos do passado e do presente tenham uma interação e se unam em alguns pontos. Por isso, para ler o manifesto na “Cinemathéque”, foram chamadas as mesmas pessoas que o leram na realidade, atualmente mais velhas, obviamente. O manifesto lido no filme, diga-se é o texto original, escrito por Godard para aquela ocasião.
A ocasião na cinemateca de Paris em 1968 era a seguinte: o seu diretor, de sobrenome La Langlois, era muito prezado em seu meio – e Paris era uma capital de cinéfilos graças à política, implantada por ele, de exibir ,no lugar que ele gerenciava, todo tipo de filme. Pois bem, La Langlois, foi demitido em 1968 pelo governo francês, mantenedor do órgão, por “incompetência em seus trabalhos. Resultado: revolta dos cinéfilos!
Revolta que surtiu efeito, pois o diretor foi readmitido. E o fato dessa revolta ter dado certo impulsionou os estudantes da época a manifestarem seu descontentamento com o governo.francês, a lutarem e a demonstrarem seu flerte com os sindicatos e com as idéias socialistas – sobretudo maoítas – de revolução.
Maio de 1968, contudo, é apenas o pano de fundo para a história que o filme conta. Isso porque o filme evidencia os sonhadores – e obviamente seus sonhos. Se sonhadores não todos os jovens da época, pelo menos os personagens principais o são. São seus sonhos que dão tônica ao filme.
O fechamento da cinemateca serve como alicerce para que os três se descubram. Aliás, pode-se perceber que os irmãos da história querem descobrir alguém que se encaixe às suas fantasias, que, com eles, faça Um – uma laranja inteira, por assim dizer. Isso porque, apesar de eles fingirem romper de algum modo com as regras paternas estabelecidas – mais nos discursos do que na ação – e de o pai ser completamente desmoralizado naquela casa, eles não chegam ao incesto de fato. É preciso um terceiro elemento. Isso é o que choca: a transgressão, que Flávio Kothe, quando veio comentar o filme em Goiânia, chamou de “pouca vergonha”.
Eles usam Matthew para transgredir e o tratam como criança. Paradoxalmente, é ele que, em determinado momento, percebe que os irmãos estavam afundados em suas fantasias e que não queriam, segundo ele, “crescer”. Sabe-se lá o que vem a ser crescer, mas, por mais que os irmãos tenham sido sacudidos pelo americano, no final do filme, sua fantasia continua: eles seguem, ambos, para confrontar a polícia – o que não uma coisa exatamente eficaz – e abandonam o americano, que fica em luto.
A pedra que invade a sala e rompe a janela tenta trazer a realidade aos personagens e dar uma solução àquilo que não a tem. Pelo menos, não desta maneira.
Antes de começar a discutir um filme, caberia a pergunta: “O que é um filme?” Apesar de ser pergunta aparentemente simples, não o é, pois tudo que é filmado por uma câmera e é colocado numa tela é, por bem ou por mal, um filme: sejam gravações de terrorista no Iraque, seja um vídeo da festa de aniversário da filhinha ou uma mega-produção de Hollywood.
No entanto, não me ocuparei deste assunto. Fato é que há várias formas de analisar um filme, se o tomarmos enquanto tendo algo de artístico. Cabe lembrar que arte aqui é entendida como a expressão de sensações e sentimentos por parte de um autor, supondo a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético e carregadas de vivências pessoais naqueles que apreciam da obra. Sendo assim, um filme abrange, além daquilo que está dito na história, o que não está dito, que é, de certa forma uma técnica.
Este aspecto, no caso de Os Sonhadores, está ligado, por exemplo, aos enquadramentos originais usados pelo autor – feitos sobretudo dentro de um apartamento –, às cores nas tomadas, às montagens feitas e às edições dinâmicas e com outros filmes entremeados à ação das personagens Theo, Isabelle e Matthew. Por diversos momentos, são utilizados trechos pouco óbvios de filmes bastante conhecidos entre os cinéfilos da época em Paris, entre eles: “Scarface” (original), “Shock Corridor” e “Bande à part”.
É interessante notar o jogo que Bertolucci, diretor do filme, faz com os filmes, uma vez que, diz ele, naquela época os cinéfilos de Paris faziam vários jogos assim entre si, isto é, diziam uma frase do filme ou interpretavam algum personagem para que os outros adivinhassem.
Bertolucci diz ainda que sua intenção neste filme é de que elementos do passado e do presente tenham uma interação e se unam em alguns pontos. Por isso, para ler o manifesto na “Cinemathéque”, foram chamadas as mesmas pessoas que o leram na realidade, atualmente mais velhas, obviamente. O manifesto lido no filme, diga-se é o texto original, escrito por Godard para aquela ocasião.
A ocasião na cinemateca de Paris em 1968 era a seguinte: o seu diretor, de sobrenome La Langlois, era muito prezado em seu meio – e Paris era uma capital de cinéfilos graças à política, implantada por ele, de exibir ,no lugar que ele gerenciava, todo tipo de filme. Pois bem, La Langlois, foi demitido em 1968 pelo governo francês, mantenedor do órgão, por “incompetência em seus trabalhos. Resultado: revolta dos cinéfilos!
Revolta que surtiu efeito, pois o diretor foi readmitido. E o fato dessa revolta ter dado certo impulsionou os estudantes da época a manifestarem seu descontentamento com o governo.francês, a lutarem e a demonstrarem seu flerte com os sindicatos e com as idéias socialistas – sobretudo maoítas – de revolução.
Maio de 1968, contudo, é apenas o pano de fundo para a história que o filme conta. Isso porque o filme evidencia os sonhadores – e obviamente seus sonhos. Se sonhadores não todos os jovens da época, pelo menos os personagens principais o são. São seus sonhos que dão tônica ao filme.
O fechamento da cinemateca serve como alicerce para que os três se descubram. Aliás, pode-se perceber que os irmãos da história querem descobrir alguém que se encaixe às suas fantasias, que, com eles, faça Um – uma laranja inteira, por assim dizer. Isso porque, apesar de eles fingirem romper de algum modo com as regras paternas estabelecidas – mais nos discursos do que na ação – e de o pai ser completamente desmoralizado naquela casa, eles não chegam ao incesto de fato. É preciso um terceiro elemento. Isso é o que choca: a transgressão, que Flávio Kothe, quando veio comentar o filme em Goiânia, chamou de “pouca vergonha”.
Eles usam Matthew para transgredir e o tratam como criança. Paradoxalmente, é ele que, em determinado momento, percebe que os irmãos estavam afundados em suas fantasias e que não queriam, segundo ele, “crescer”. Sabe-se lá o que vem a ser crescer, mas, por mais que os irmãos tenham sido sacudidos pelo americano, no final do filme, sua fantasia continua: eles seguem, ambos, para confrontar a polícia – o que não uma coisa exatamente eficaz – e abandonam o americano, que fica em luto.
A pedra que invade a sala e rompe a janela tenta trazer a realidade aos personagens e dar uma solução àquilo que não a tem. Pelo menos, não desta maneira.
quarta-feira
Contingências
De uma só tacada, no mesmo dia, eu quero preencher mais um buraco: o da existência!
Pretensioso, não? Não. Porque não quero dar conta da Existência em si, mas de algo menor, em todos os sentidos.
Fato é que a cada instante é necessário dar conta da existência. E na existência há este ínfimo e delgado blog. Oh! os blogs existem. E eu quero acreditar que isso não é uma mentira.
Eu afirmo que este blog existe, novamente. Se este blog existe, existe de alguma forma, ou para algo, ou em algo... Não vou traçar as direções todas e os motivos, e desmotivos, e imotivos, e amotivos, e premotivos, e promotivos, e remotivos para esta existência. Mas entre outras coisas, existe o espaço para que algo seja dito. Dito para que algo escape.
Dizer porque a contingência é anterior à coerência; a coerência é forjada da contingência. A contingência, contudo, está aí e é dita. Vez ou outra, eu vou querer dizer. Isso coloca a existência em pauta. A do blog, no caso.
Pretensioso, não? Não. Porque não quero dar conta da Existência em si, mas de algo menor, em todos os sentidos.
Fato é que a cada instante é necessário dar conta da existência. E na existência há este ínfimo e delgado blog. Oh! os blogs existem. E eu quero acreditar que isso não é uma mentira.
Eu afirmo que este blog existe, novamente. Se este blog existe, existe de alguma forma, ou para algo, ou em algo... Não vou traçar as direções todas e os motivos, e desmotivos, e imotivos, e amotivos, e premotivos, e promotivos, e remotivos para esta existência. Mas entre outras coisas, existe o espaço para que algo seja dito. Dito para que algo escape.
Dizer porque a contingência é anterior à coerência; a coerência é forjada da contingência. A contingência, contudo, está aí e é dita. Vez ou outra, eu vou querer dizer. Isso coloca a existência em pauta. A do blog, no caso.
A morte e a pausa
Sejam novamente bem-vindos.
A tinta começa a secar. Você pode colocar a mão e sentir OCARTAZ seco e parado, mas não coloque demais, senão mancha. Se manchar, você não lê. E dá pra sentir a diferença entre a textura desta e da última tinta. Sim, porque a última foi há um mês.
Tinta velha pode ser valiosa. Tinta nova, igualmente. Assim, eu deixo aqui minhas digressões sobre tinta.
O que é verdadeiro? Na última vez, eu disse que aqui, ou melhor, logo ali em cima, que a verdade tem estrutura de mentira. E vice-versa. Comecemos do que há em comum às duas: a forma de ficção.
A verdade, além de muitas outras coisas, é aquilo que se extrai do tempo a fim de que não seja corroido. O interessante é que esta verdade é fundamentalmente e quase somente aquilo que um sujeito percebe como duradouro. Chamemos nosso sujeito aqui de Darci.
Se Darci achar que tomar café é importante, ter tomado café pela manhã foi uma verdade. Se não, não terá sido. Mas digamos que Darci cruze a rua X para ir para determinado lugar. Embora seja "verdade" que a rua X tenha este nome, Darci pode nunca ter notado isso, e não será verdade para Darci que a rua X se chame X.
E Darci, nosso bode-expiatório, quando diz a verdade, nem sempre conta a verdade. A verdade de Darci pode muito bem ser uma mentira! E devemos acreditar em Darci porque Darci mente. E todos sabemos que Darci mentirá, enquanto existir. E precisamente no momento em que mente, a mentira para Darci e para o seu discurso é tomada como verdade. Quem não acredita numa mentira, jamais a conta.
Um sujeito acredita numa mentira nem que seja para que essa mentira oculte aquilo que o envergonha, por exemplo. E, em sendo assim, a vergonha é sentida como verdade para Darci.
A verdade, continuando neste raciocínio é não-toda: jamais completa, jamais pronta e acabada. Sempre há algo a ser colocado ali que Darci apreende como verdade, como incorroível. Darci não dirá tudo, e nem somente a verdade, e nem apenas a verdade, e nem toda a verdade. É ingênuo achar que um sujeito será capaz de fazê-lo. Darci talvez acredite. Os cientistas costumam acreditar.
Darci, enquanto viver, sente aquilo que da verdade afeta seu corpo de qualquer forma que um corpo pode ser afetado. E como um corpo pode ser afetado? Ora, com afetos. E, dos afetos, alguns enganam, outro não. É necessário separá-los a fim de obter a Verdade, que jamais existira em si ou mim: uma vez que tentarmos agarrá-la e apreendê-la, ela, boa mulher, escorrerá pelos dedos, assim como o tempo.
Eu volto: a verdade está intimamente ligada ao tempo. Ambos são infinitos, mas contáveis, escansíveis.
Por isso, uma pausa finita e infinita. Pausa que determina o fim de Darci.
A tinta começa a secar. Você pode colocar a mão e sentir OCARTAZ seco e parado, mas não coloque demais, senão mancha. Se manchar, você não lê. E dá pra sentir a diferença entre a textura desta e da última tinta. Sim, porque a última foi há um mês.
Tinta velha pode ser valiosa. Tinta nova, igualmente. Assim, eu deixo aqui minhas digressões sobre tinta.
* * *
O que é verdadeiro? Na última vez, eu disse que aqui, ou melhor, logo ali em cima, que a verdade tem estrutura de mentira. E vice-versa. Comecemos do que há em comum às duas: a forma de ficção.
A verdade, além de muitas outras coisas, é aquilo que se extrai do tempo a fim de que não seja corroido. O interessante é que esta verdade é fundamentalmente e quase somente aquilo que um sujeito percebe como duradouro. Chamemos nosso sujeito aqui de Darci.
Se Darci achar que tomar café é importante, ter tomado café pela manhã foi uma verdade. Se não, não terá sido. Mas digamos que Darci cruze a rua X para ir para determinado lugar. Embora seja "verdade" que a rua X tenha este nome, Darci pode nunca ter notado isso, e não será verdade para Darci que a rua X se chame X.
E Darci, nosso bode-expiatório, quando diz a verdade, nem sempre conta a verdade. A verdade de Darci pode muito bem ser uma mentira! E devemos acreditar em Darci porque Darci mente. E todos sabemos que Darci mentirá, enquanto existir. E precisamente no momento em que mente, a mentira para Darci e para o seu discurso é tomada como verdade. Quem não acredita numa mentira, jamais a conta.
Um sujeito acredita numa mentira nem que seja para que essa mentira oculte aquilo que o envergonha, por exemplo. E, em sendo assim, a vergonha é sentida como verdade para Darci.
A verdade, continuando neste raciocínio é não-toda: jamais completa, jamais pronta e acabada. Sempre há algo a ser colocado ali que Darci apreende como verdade, como incorroível. Darci não dirá tudo, e nem somente a verdade, e nem apenas a verdade, e nem toda a verdade. É ingênuo achar que um sujeito será capaz de fazê-lo. Darci talvez acredite. Os cientistas costumam acreditar.
Darci, enquanto viver, sente aquilo que da verdade afeta seu corpo de qualquer forma que um corpo pode ser afetado. E como um corpo pode ser afetado? Ora, com afetos. E, dos afetos, alguns enganam, outro não. É necessário separá-los a fim de obter a Verdade, que jamais existira em si ou mim: uma vez que tentarmos agarrá-la e apreendê-la, ela, boa mulher, escorrerá pelos dedos, assim como o tempo.
Eu volto: a verdade está intimamente ligada ao tempo. Ambos são infinitos, mas contáveis, escansíveis.
Por isso, uma pausa finita e infinita. Pausa que determina o fim de Darci.
Assinar:
Postagens (Atom)