É obvio que o óbvio aconteceu. Os bandidos descobriram que os museus brasileiros são precários: se não o são no acervo, o são na segurança. E agora, além do museu no Rio, um museu em Embu (São Paulo) foi roubado. Chama-se Museu de Arte Sacra dos Jesuítas. E, apesar do nome, deve ter alguma coisa valiosa, senão não seria roubado – porque o roubo pressupõe um comprador ou um apaixonado, neste caso.
A arte sempre esteve acompanhada, ao longo da história, de uma série de mistérios, incluindo o roubo. Os filmes exemplificam isso.
Mas aqui roubar está muito fácil. Não tem mistério nem dá tesão.
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domingo
Serviço de Relacionamento OCARTAZ
Rala, mas não escassa, a tinta do cartaz não se acaba, até que chegue ao fim. Mas ainda tem.
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Ameaça
E não por ter o que não falar, era calada. Calada e mulher. Aliás, já mudo isso um pouco: não chegava a mulher; era fêmea, e não era calada de verdade. Falava muito, até; e variava entre uns quatro ou seis assuntos: gente, novelas, roupas e comidas estavam entre os principais. E porque comunicativa, era calada. Para si mesma.
Não ouvia vozes -- nem as que se obedecem, nem as do pensamento. No mais íntimo, assim como quando ia caminhar só, quando lia ou quando via um programa de televisão fazia questão de calar-se. Não que quando quisesse falar a voz não viesse. Mas abafava. E quanto mais não dizia, mais feliz ficava em não dizer e talvez só por isso, conseguia as informações que poderia compartilhar com os outros; não as dela. Prestava toda a atenção do mundo àquilo que fazia naquela hora: se andava, pensava nos passos; se lia, não interpretava, mas sabia a história.
Em seu método, ela tinha coerência. Eu vejo como ela conversa com as amigas. Mais para quê?
Para poder falar de gente e ver como ela faz parte dessa gente. Para que ela compare a vilã e o mocinho da novela com as pessoas em sua vida. Para esconder que ela ama o Dante, que não é galã de televisão. Para que ela diga enfim algo, porque embora calada para si, eu já disse, ela fala.
Mas ali, no meio do que ela fala, abre-se uma falha, pois ela fala o que dizem para ela, e não -- digamos -- o que vem de um violino acompanhado por um cantor que parece que ela ouve às vezes. Esse meio é o problema de hoje. O problema dela de hoje. Porque hoje o meio está assim tão meio que incomoda. É uma bela cólica em nossa barriga -- e logo depois de voltar de seu encontro com Dante!
Será que está perto de menstruar? Não. Ela refez as contas. Definitivamente não. Mas a dor não passa, e sangra, embora não na carne. Ela checou.
Dante. Dos que conhecia era o único por quem ela se comivia e -- pasme -- às vezes antes de dormir pensava nele. Não que de fato pensasse e nem se comovesse, porque como ela pensava calada, o pensamento era aquele violino abafado num quarto escuro e com isolamento acústico. Em coisa de 2 segundos não havia mais pensamento, nem violino, nem violinista, nem cantor, nem voz, tão potente o isolamento.
E Dante, embora eu não o conheça, parece-me que foi o único, com seu jeito mirrado e tímido que conseguiu fazer soar a música: ele também não fala, não tem assuntos complexos e tem cara de inteligente. De rosto triangular, sobrancelhas grossas, lábios finos, boca contraída e um olhar distante, como se visse além das coisas. Mas ele mal e mal enxergava o que estava em sua frente, por isso perfeito para ela.
E suponho que porque não havia entrelinhas que ela demonstrasse, pelo menos para o Dante, ele era o rapaz preferido dela -- e, eu repito, ela escondia de si insistentemente. Se contara para as amigas? Não, pois se não contara nem para si!
Dante também gostava dela. Começou a gostar dela há pouco, pois se conheceram há mais ou menos um mês. Mas ele sabia disso. Eles tinham amigos em comum. E por que diabos Dante a achou interessante? Era moça sem entrelinhas e -- pensava ele -- sem complexidades. Ele não sabia mas a encarava como um biscoito de queijo amanhecido: já fora mais crocante, mais suculento, mais quente, mas continuava alimento e -- porque embatumado -- leva mais tempo para ser mastigado. Isso o atraía.
Foi então que sentaram-se lado a lado, e quando o violinista e o cantor começaram a tentar incomodá-la com seu som estridente, ela suou frio por uns três milésimos de segundo. E como tudo que é dentro está isolado, houve uma troca de umas boas dez palavras para cada lado. Não mais.
Ela, que já tivera muitos outros rapazes ao seu lado, dos quais aliás reclamava muito -- coração burro! --, não falou com ele. Para isso, uma bronca no cantor e umas três pauladas no violinista bastavam: o violinista sangrava. Era bom assim porque ela dava tempo para que ele se recompusesse e voltasse a tocar mais adiante. Ela precisava dele lá, machucadinho, mas tocando assim não; era pra ficar quieto. E ela estragaria tudo se trocasse mais palavras com o Dante!
Foi quando o cantor começou novamente a entoar: Doí! Ah, como doí!
Mas decidiu calar a boca, para não se machucar.
Não ouvia vozes -- nem as que se obedecem, nem as do pensamento. No mais íntimo, assim como quando ia caminhar só, quando lia ou quando via um programa de televisão fazia questão de calar-se. Não que quando quisesse falar a voz não viesse. Mas abafava. E quanto mais não dizia, mais feliz ficava em não dizer e talvez só por isso, conseguia as informações que poderia compartilhar com os outros; não as dela. Prestava toda a atenção do mundo àquilo que fazia naquela hora: se andava, pensava nos passos; se lia, não interpretava, mas sabia a história.
Em seu método, ela tinha coerência. Eu vejo como ela conversa com as amigas. Mais para quê?
Para poder falar de gente e ver como ela faz parte dessa gente. Para que ela compare a vilã e o mocinho da novela com as pessoas em sua vida. Para esconder que ela ama o Dante, que não é galã de televisão. Para que ela diga enfim algo, porque embora calada para si, eu já disse, ela fala.
Mas ali, no meio do que ela fala, abre-se uma falha, pois ela fala o que dizem para ela, e não -- digamos -- o que vem de um violino acompanhado por um cantor que parece que ela ouve às vezes. Esse meio é o problema de hoje. O problema dela de hoje. Porque hoje o meio está assim tão meio que incomoda. É uma bela cólica em nossa barriga -- e logo depois de voltar de seu encontro com Dante!
Será que está perto de menstruar? Não. Ela refez as contas. Definitivamente não. Mas a dor não passa, e sangra, embora não na carne. Ela checou.
Dante. Dos que conhecia era o único por quem ela se comivia e -- pasme -- às vezes antes de dormir pensava nele. Não que de fato pensasse e nem se comovesse, porque como ela pensava calada, o pensamento era aquele violino abafado num quarto escuro e com isolamento acústico. Em coisa de 2 segundos não havia mais pensamento, nem violino, nem violinista, nem cantor, nem voz, tão potente o isolamento.
E Dante, embora eu não o conheça, parece-me que foi o único, com seu jeito mirrado e tímido que conseguiu fazer soar a música: ele também não fala, não tem assuntos complexos e tem cara de inteligente. De rosto triangular, sobrancelhas grossas, lábios finos, boca contraída e um olhar distante, como se visse além das coisas. Mas ele mal e mal enxergava o que estava em sua frente, por isso perfeito para ela.
E suponho que porque não havia entrelinhas que ela demonstrasse, pelo menos para o Dante, ele era o rapaz preferido dela -- e, eu repito, ela escondia de si insistentemente. Se contara para as amigas? Não, pois se não contara nem para si!
Dante também gostava dela. Começou a gostar dela há pouco, pois se conheceram há mais ou menos um mês. Mas ele sabia disso. Eles tinham amigos em comum. E por que diabos Dante a achou interessante? Era moça sem entrelinhas e -- pensava ele -- sem complexidades. Ele não sabia mas a encarava como um biscoito de queijo amanhecido: já fora mais crocante, mais suculento, mais quente, mas continuava alimento e -- porque embatumado -- leva mais tempo para ser mastigado. Isso o atraía.
Foi então que sentaram-se lado a lado, e quando o violinista e o cantor começaram a tentar incomodá-la com seu som estridente, ela suou frio por uns três milésimos de segundo. E como tudo que é dentro está isolado, houve uma troca de umas boas dez palavras para cada lado. Não mais.
Ela, que já tivera muitos outros rapazes ao seu lado, dos quais aliás reclamava muito -- coração burro! --, não falou com ele. Para isso, uma bronca no cantor e umas três pauladas no violinista bastavam: o violinista sangrava. Era bom assim porque ela dava tempo para que ele se recompusesse e voltasse a tocar mais adiante. Ela precisava dele lá, machucadinho, mas tocando assim não; era pra ficar quieto. E ela estragaria tudo se trocasse mais palavras com o Dante!
Foi quando o cantor começou novamente a entoar: Doí! Ah, como doí!
Mas decidiu calar a boca, para não se machucar.
sábado
Vermelhos e suculentos
Festa típica. Cheguei e sorri:
-- Olá, tudo bem?
Após vinte minutos:
-- Boa noite, tudo bem?
Cumprimentei pouco mais da metade das pessoas.
Várias mesas e algumas cadeiras, cuja maioria era de plástico. Tratei de providenciar uma, porque sempre são poucas. E elas diminuem com o passar do tempo, pelo menos até certa altura.
As cadeiras são em número suficiente para que haja um ar movimentação, pessoas em pé. Pessoas em pé fazem parte do marketing da festa e muitas delas dão aquele sorriso gentil com o canto da boca e falam que não querem se sentar. Imagine se quero me sentar...
Eu quero. Sentei-me.
-- E o senhor, gostaria de beber o quê?
-- Deixe-me pensar -- pequena pausa. Uma Coca-cola, por favor.
Sim. Não era dia de outra bebida. Falei um pouco com as pessoas ao meu lado. Peguei os petiscos. Umas duas vezes.
Outras pessoas conhecidas chegaram. Conversamos.
Jantar. Os primeiros esfomeados aglomeraram-se e depois de algumas brigas pela colher do arroz, voltaram aos seus lugares. Peguei depois deles o pedaço que me cabia.
Sobremesa. E as mulheres, querendo encher o vazio nelas com o doce -- e só com o doce --, correram e disputaram a mousse de chocolate como se fosse a última e queriam o pedaço de merengue com mais morangos. Ficavam pescando os morangos até sujar as mãos.
Eu não. Queria o com menos morangos. Sem morangos, se possível, mas não foi possível.
Voltei para a mesa. O assunto: morangos. É época. Daí as moças me perguntaram: morangos ou cerejas?
Cerejas, é claro! Os morangos são seus. Imensamente seus, quando acompanhados de um sorriso.
-- Olá, tudo bem?
Após vinte minutos:
-- Boa noite, tudo bem?
Cumprimentei pouco mais da metade das pessoas.
Várias mesas e algumas cadeiras, cuja maioria era de plástico. Tratei de providenciar uma, porque sempre são poucas. E elas diminuem com o passar do tempo, pelo menos até certa altura.
As cadeiras são em número suficiente para que haja um ar movimentação, pessoas em pé. Pessoas em pé fazem parte do marketing da festa e muitas delas dão aquele sorriso gentil com o canto da boca e falam que não querem se sentar. Imagine se quero me sentar...
Eu quero. Sentei-me.
-- E o senhor, gostaria de beber o quê?
-- Deixe-me pensar -- pequena pausa. Uma Coca-cola, por favor.
Sim. Não era dia de outra bebida. Falei um pouco com as pessoas ao meu lado. Peguei os petiscos. Umas duas vezes.
Outras pessoas conhecidas chegaram. Conversamos.
Jantar. Os primeiros esfomeados aglomeraram-se e depois de algumas brigas pela colher do arroz, voltaram aos seus lugares. Peguei depois deles o pedaço que me cabia.
Sobremesa. E as mulheres, querendo encher o vazio nelas com o doce -- e só com o doce --, correram e disputaram a mousse de chocolate como se fosse a última e queriam o pedaço de merengue com mais morangos. Ficavam pescando os morangos até sujar as mãos.
Eu não. Queria o com menos morangos. Sem morangos, se possível, mas não foi possível.
Voltei para a mesa. O assunto: morangos. É época. Daí as moças me perguntaram: morangos ou cerejas?
Cerejas, é claro! Os morangos são seus. Imensamente seus, quando acompanhados de um sorriso.
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